Freguesia de Sameiro

Museu Virtual Category: PATRIMÓNIO CULTURAL, Imaterial e História LocalMuseu Virtual Tags: história local, manteigas, património cultural e sameiro

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  • Sameiro

     

    A povoação localiza-se perto da foz do ribeiro do vale, ou ribeiro do Urso, junto ao rio Zêzere, tratando-se de uma zona bastante atrativa à fixação de pessoas. Com terreno relativamente fértil, com a abundância de vários cursos de água, a aldeia encontra-se na Margem Esquerda do Zêzere situada na encosta Norte o que aumenta a exposição do aglomerado ao Sol.

    A quota de altitude da povoação ronda os 600-650 metros, embora nas serras próximas se encontrem picos entre os 1200-1300 metros de altitude. Até às recentes plantações dos serviços florestais durante o séc. XX as encostas circundantes estavam despidas dos atuais pinheiros bravos, com exceção de um ou outro soito, azinhal ou medronhal. As encostas maioritariamente cobertas por mato mediterrânico,  seriam o ideal para sustentar a criação de gado e caça abundante. Se conjugarmos estes fatores e adicionarmos uma boa abundância de pescado no Zêzere, principalmente a truta, estavam criadas as condições ideais para a fixação de pessoas

    O núcleo original deverá ter crescido entre o Ribeiro do Vale e a Barroca do Passal, aos habitantes, até mesmo se necessário os ribeiros facilitariam se necessário a construção de uma pequena paliçada para maximizar as defesas do núcleo, esta suposição apenas se baseia na lógica e na comparação com outros núcleos similares.

    Sobre a fixação das primeiras pessoas em Sameiro os registos são escassos, mas devemos mencionar as tribos lusitanas ou de similar origem como os primeiros habitantes do local. Depois da idade do bronze a Terra sofreu um aquecimento o que pode ter sido favorável à fixação em locais até a data mais inóspitos. Com o núcleo central fixado na posição já referida anteriormente toda a zona envolvente seria usada para agricultura, com a terra a ser trabalhada em socalcos ou no cultivo de lameiros junto ao Rio e ribeiro por serem zonas relativamente férteis e húmidas.

    Apesar de ainda ser um local difícil devido ao relevo e suscetível às oscilações de períodos Frios/Quentes do planeta, o local no geral é favorável à fixação de pessoas sendo apenas posto este lugar em causa durante as invasões de povos não nativos. Caso dos Romanos, Suevos, Visigodos, Árabes e mais tarde Franceses.

    Sendo o Vale do Zêzere uma zona bastante defensável e ótima para que um punhado de defensores determinados conseguissem deter o avanço de tais povos (fizeram-no os habitantes de Manteigas no caso das Invasões Francesas) a limitada capacidade demográfica dos habitantes locais poderá ter-se extinguido com alguma rapidez o que permitiu que os invasores conseguissem conquistar todo o vale devido ao desgaste contínuo aplicado aos defensores.

    A povoação de Sameiro está intimamente ligada com o seu Vale, zona de terras férteis trabalhadas em socalcos, em tempos a sua principal atividade ao longo dos séculos foi a pastorícia de gado caprino e alguma exploração melífera nas encostas envolventes.

    Este envolvimento para com o vale de Sameiro é de tal modo importante que há relato de um Sameiro Velho no que hoje denominamos o lugar do ribeiro do Urso, José David Lucas Batista nas suas obras defende que isto se devia aos vales inferiores do Zêzere poderem estar frequentemente inundados ou alagados, atirando os aglomerados populacionais para quotas mais altas.

    Para corroborar esta teoria há relatos de achados arqueológicos encontrados no local: quatro mós romanas e um marco miliário que acabaram por ser destruídos pelo proprietário. No séc. XVIII, segundo afirma o padre Luís Abrantes de Almeida, encontravam-se vestígios de cantaria de uma possível torre no lugar da fonte dos mouros e no azinhal dos mouros vestígios de uma “pia de pedra mármore e uma pica ou venabullo de metal amarello”, o tal padre ainda se deslocou ao terreno mas não encontrou vestígios de nenhum desses artefactos.

    Os primeiros registos históricos sobre Sameiro datam de 1220 numa carta de foral atribuída por D. Guilherme Raimundes a Vila Nova de Riba Mondego, este queria povoar uma herdade que possuía;

    in riba mondego et est termino felgozinho”;

    Vizinho de vila noua per totum regnum Portugal non pectet nisi per foro de Zameiro”;

    Existem duas teorias sobre o nome de Sameiro, uma que Sameiro deriva de povo Cimeiro, esta teoria baseia-se nos relatos de uma horda de invasores que ao subir o vale do Zêzere se deparou com uma emboscada no sitio da figueira-brava que não podendo avançar mais devido à determinação dos defensores, decidiu que o local onde hoje se encontra Sameiro seria a ultima povoação no Vale do Zêzere logo apelidando-o de Povo Cimeiro, José David Lucas Batista escreve nas suas Notas sobre Manteigas que esta horda seria um grupo do destacamento militar de Massena que se encontrava em retirada para Cidade Rodrigo gorada a 3.ª Invasão Napoleónica de Portugal,

    A segunda teoria fala-nos da possibilidade de Sameiro derivar de Zamarius, um possível povoador ou Fundador de Sameiro. Sendo este nome de origem Germânica seria mais provável o topónimo ter chegado só por volta do séc. V a quando da chegada dos Suevos e Visigodos à Península Ibérica.

    No entanto o topónimo Zameiro por estar documentado deve ser o mais viável, já o de Povo cimeiro deve ter sido adotado devido à emboscada feita às tropas francesas, sabemos que a retirada de Massena foi difícil, as suas tropas estavam sem comida e devido à tática de terra queimada adotada pelo exército anglo-luso. A retirada foi feita ao longo do vale do Mondego até a região da Guarda e ai os corpos do exército separaram-se sendo que o VIII corpo liderado por Junot acampou perto de Belmonte durante algum tempo, é possível que algum destacamento tivesse subido o vale do Zêzere destruído a fortificação de Valhelhas e se tivesse aventurado até montante de Sameiro em busca de provisões, visto ser uma região muito montanhosa que oferecia boas condições de refugio, os seus habitantes não deveriam ter fugido para lá das linhas de Torres Vedras.

    O desespero das tropas em tentar encontrar mantimentos deve tê-los levado a subir o vale do Zêzere em estradas que não passariam de pequenos trilhos de gado que percorriam o fundo vale junto ao rio, logo podemos descartar qualquer tipo de apoio de artilharia e Cavalaria, o destacamento não deveria ser mais que alguma companhia constituída por tropas ligeiras pois estas estariam melhor equipadas para percorrer o vale do que as tropas de Infantaria de Linha. A oposição pelas gentes de Manteigas deve ter sido feita por tropas milicianas ou ordenanças, sabemos que o General Trant a comando das milícias a norte do Mondego estava a dificultar a retirada aos Franceses, logo podemos suspeitar que a zona de Manteigas tenha sido reforçada por algumas tropas regulares.

    O local da Figueira-brava foi um local ideal para os defensores, podem ter colocado algumas tropas no fundo do vale em formação de Linha e espalhado escaramuçadores pelas encostas, a aproximação dos Franceses deve ter sido em fins de Março ou inícios de Abril, visto que o VIII corpo de Junot assentou campo em Belmonte dia 22 de Março, logo o caudal do Zêzere ainda seria forte, mais um fator a dificultar a progressão das tropas invasoras

    O estilo de luta das tropas Francesas poderia ter sido prejudicial ao seu desempenho formando grandes colunas cujo objetivo seria cortar ao meio as linhas do adversário, as tropas luso britânicas com uma cadência de fogo bastante superior aos Franceses normalmente conseguiam despedaçar as massivas colunas, os relatos que nos chegam aos nossos dias fazem-nos crer que os defensores fizeram rolar encosta a baixo grandes pedras que ao ganharem velocidade causaram o caos na coluna francesa assim que a coluna perdesse coesão ficaria bastante vulnerável as rajadas dos defensores e provavelmente rapidamente foram repelidos.

    Apesar de soldados profissionais os Franceses estariam com a moral muito baixa e a falta de mantimentos causava baixas devido à fome. José David Lucas Baptista documenta numa das suas obras que em conversas com as pessoas mais velhas de Manteigas estas ouviram a história contada por quem esteve na defesa de Manteigas. Quanto a Sameiro as gentes devem ter fugido para as montanhas ou ter-se juntado à população de Manteigas. As pessoas mais idosas ainda contam  relatos que a população para evitar o saque dos bens da igreja os foram esconder na zona da “Barroca da Volta”.

    As populações das terras vizinhas desde 22 de Março sofreram às mãos dos Franceses que nos seus raides roubavam e assassinavam indiscriminadamente como medida de retaliação para com as populações locais este período terminou em meados de Abril data da retirada das tropas de Massena para Espanha.

    Terminado este episódio dita a lógica que o topónimo de Povo Cimeiro tenha sido adotado pelas gentes quer de Sameiro e de Manteigas para comemorar o feito vitorioso sobre os invasores Franceses declarando que a montante de Sameiro nada existiria, sendo esta a ultima povoação no Vale do Zêzere.

     

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