Lendas de Manteigas e Serra da Estrela

Museu Virtual Category: PATRIMÓNIO CULTURAL, Imaterial e LendasMuseu Virtual Tags: história local, lendas, manteigas, património cultural e serra da estrela

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  • Lendas de Manteigas e Serra da Estrela

     

    A Serra da Estrela sempre foi um local fértil em lendas, principalmente devido às características orográficas, e climáticas que a serra possui. Ao longo dos tempos era necessário encontrar explicações para fenómenos  que só recentemente se conseguiram provar cientificamente. Durante a expedição científica à Serra da Estrela em 1881 foi dedicada uma secção à exploração de várias lendas e fenómenos da Serra.

    Estas Lendas e fenómenos foram divididos da seguinte forma na secção dedicada a esta temática no Livro sobre a Expedição Cientifica:

    I- Comunicação das Lagoas com o mar, fluxo e refluxo, bramidos quando há tempestade;

    II- Profundidade Indefinida das lagoas;

    III- Olhos Marinhos;

    IV – Qualidades Maravilhosas das águas;

    V – Exageradas dimensões da Serra;

    VI – Tesouros Encantados;

    VII – Crusta do Terreno;

    VIII – Cavernas;

    IX – Opinião de Estrangeiros Acerca da Serra;

    X – Conexão das Lendas – Viriato;

    Como podemos observar pelos vários tópicos de análise, grande parte das lendas envolve as várias lagoas da serra, locais formados durante o período glaciário que mesmo nos dias de verão sustêm um grande reservatório de água a baixas temperaturas.

    Predominam teorias sobre lagoas sem fundo, sorvedouros e olhos marinhos que debitavam copiosas quantidades de água sem fim, acreditando os locais que esta água iria diretamente para os oceanos,  pois nos dias de grande degelo a água seria tanta que ninguém acreditava que o subsolo pudesse suster tal quantidade. De todas as lagoas a Escura era a que mais se prestava a lendas fantásticas o que causava certo pânico nos habitantes, principalmente nos pastores que deambulavam com o gado pelas pastagens de altitude. Relatos de destroços de um suposto navio que aí foi encontrado, levaram rapidamente à teoria da ligação ao mar. Quando os membros da expedição científica entraram em contacto com os locais para saberem sobre os supostos destroços, foi-lhes dito que um certo senhor rico que por aqui habitava mandou construir um engenho, barcaça ou barco para lá brincar, engenho que  lá ficou e ao deteriorar-se, os seus destroços em dias de tempestade podiam ser vistos na lagoa.

    Os habitantes acreditavam que a lagoa Escura seria uma lagoa sem fundo que escondia grandes tesouros, (talvez não seja tão descabida a teoria do tal senhor rico que quis explorar esta lagoa, talvez para procurar tais tesouros, pois se fosse pelo prazer de andar de barco a Lagoa Comprida, vizinha da Escura, seria a melhor escolha). Os relatos sobre esta lagoa não terminam por aqui. Diziam os pastores que quando estivesse seca ninguém nela se podia aventurar, pois corria o risco de lá desaparecer. Até o gado pelo seu instinto natural a evitava. Tal teoria poderia resultar das grandes quantidades de lama que se encontrariam no fundo e nas margens da lagoa. Assim, quando esta secasse ou ficasse com pouca água, a lama poderia prender os mais incautos,  pessoas ou animais, criando um efeito de sucção. Daqui também devemos considerar os relatos de movimentos da crosta terrestre perto das lagoas poder ser explicado pela mesma teoria. Dados recolhidos pela expedição científica calculam que a lagoa Escura deva ter uns 14 a 16 metros de profundidade, em caudal normal e de cheia, respetivamente.

    Tais lendas sobre as lagoas chegaram à Corte que em meados do séc. XVI o Infante D. Luiz filho de D. Manuel visitou a lagoa do “Paxão” e mandou um pescador lá mergulhar para verificar de onde vinham as tábuas dos navios que supostamente também por lá apareciam. Ou seja ao longo dos tempos as lagoas sempre forma lugares de grande mistério o que terá aumentado ainda mais os relatos de estranhos fenómenos.

    As qualidades maravilhosas das águas da serra também foram observadas pela expedição científica, desde a qualidade das águas termais na secção dedicada à medicina. Os vários relatos de “experiências” que tinham sido feitas em lagoas e com água de algumas nascentes, desde um “Preto” ter sido mergulhado numa lagoa e só se recuperarem os ossos, e de peixes que quando eram mergulhados em certa água ao fim de um dia só restava a espinha, tais teorias e relatos não devem ser descartados mas sim dissecados de tais ideias demasiado fantasiosos, sabemos que o PH das águas termais pode variar devido a certos movimentos tectónicos, podendo originar afloramentos de vapor ou água a altas temperaturas, certas nascentes naturais não devem ser utilizadas devido à grande concentração de enxofre.

    Sobre tesouros escondidos na serra as teorias também são bastante abundantes, desde tesouros dentro das lagoas, em poços naturais perto de Manteigas que escondiam os tesouros árabes, ou no cocuruto de Alfátema lá escondidos pelo suposto Emir pai de Alfátema. Tais lendas são prolíferas e alguns dizem que se sonhar três vezes seguidas com um tesouro no mesmo local este por lá aparece. Facto comprovado pelos relatos da Lenda do Pote de patacas que foi encontrado numa vinha.

    A Lenda da Princesa Estrela, Extraída da “ Monografia da Vila Seia “ de P. José Quelhas Bigotte.

    Esta lenda surgiu na época  da Idade Média. Vivia um rei godo numa planície perto da Serra da Estrela que tinha uma filha muito linda, branca como as estrelas, a quem chamou Estrela. Na corte havia um cavaleiro chamado Dom Diego ou Diogo que gostava muito da princesa. Amavam-se  e passavam muito tempo juntos. Aquando das guerras com os árabes, o cavaleiro partiu com o rei para terras distantes e a princesa ficou muito triste e desolada. Para saber do seu amando resolveu subir com as suas aias aos mais altos penhascos para ver se o avistava. Com voz muito triste chamava: – Mom Diego, Mom Diego! Porque não vens? Só as rochas negras repercutiam o eco… Assim passavam os dias e as noites e a princesinha a chorar. Os seus olhos eram duas fontes de água pura a correr. Tanta água derramou que escorreu pela serra abaixo. Os pastores durante muito tempo ouviam os seus ecos nas cavernas: – Mom Diego, Mom Diego. Assim deram  ao rio que se formou com as  lágrimas da princesa o nome de Mondego e à alta serra que se chamava de Montes Hermínios o nome de Estrela por ser linda, esbelta e formosa como as estrelas do céu. (versão resumida)

    Lenda dos três rios.

    (Mondego, Alva e Zêzere) Do Estrela da beira, nº 97 (11-2-1934), Visconde De Sanches De Frias.

    O Mondego, o Alva e o Zêzere, nascidos da mesma mãe, os três amigos viviam tranquilos e alegres. Uma Tarde, já quase de noite, envolveram-se em azeda conversa e lançaram desafios para romperem as prisões que os detinham e lançarem-se em corrida vertiginosa serra abaixo cujo objetivo seria o mar.

    O Mondego, astuto, forte e madrugador, levantou-se cedo e começou a correr devagar para não fazer barulho e levantar suspeitas, desde as vizinhanças da Guarda, por Celorico, Gouveia, Manteigas, Canas de Senhorim e dirigiu-se depois de ter robustecido com a ajuda dos colegas que vieram cumprimenta-lo à “Raiva” na direção de Coimbra depois de ter atravessado as Beiras.

    O Zêzere que também estava alerta, moveu-se ao mesmo tempo que o Mondego, foi em direção a Manteigas pelo vale abaixo, passou pelos terrenos da Guarda, correu para o Fundão, desnorteou obliquando para Pedrogão Grande, depois de ter cruzado três províncias e já cansado de caminhar 40 léguas abraçou-se ao Tejo em Constância para poder chegar ao mar.

    O Alva dorminhoco e poeta, demorou-se contemplando as estrelas, mais do que era prudente, adormeceu confiando no seu génio. Quando despertou estremunhado, em sobressalto, avistou os colegas a correr já quase a perder de vista. O Alva atirou consigo de roldão pelos campos fora, rasgou furiosamente montanhas e rochedos, galgou despenhadeiros, bradou vingança temerosa, rugiu, e quando julgou que estava a dois passos do triunfo foi esbarrar no seu principal antagonista o Mondego que lá ia, há várias horas, pelos campos de Coimbra. O Alva atirou-se ao adversário a ver se o lançava fora do seu leito, espumou de “raiva” mas o outro que deslizava sereno e forte riu-se e engoliu-o de um trago. Chama-se raiva a este local onde o Alva desagua no Mondego em memória à sua atitude. (versão resumida).

    O Mistério da Crasto e a lenda de ALFÁTIMA (ou ALFÁTEMA)

    De Manuel Ferreira da Silva “Ecos de Manteigas” n.º 71 de 5-2-1956.

     Sobre Viriato e a Serra da Estrela diz-se que por lá nasceu e dominou, já abordamos a sua história num texto anterior portanto não vamos abordar demasiado esta temática. Sobre Alfátema diz-se que por cá viveu com seu pai o Emir das terras onde hoje é Manteigas, princesa de rara beleza, enamorou-se de um cavaleiro cristão que apesar de só se verem ao longe se enamoraram. Quando os Cristãos montaram arraial para tomar o castelo do Emir e a sua formosa filha, este escondeu o seu ouro nos subterrâneos do castelo e fugiu com a sua filha para a os altos da serra, passando pela “Barroca da Moura”, tão laboriosa era a subida pela serra que o emir e a sua filha desesperavam. De súbito, um enorme clarão rasga o espaço, de súbito o caminho parece mais breve, rapidamente chegam ao palácio do cabeço (Coruto ou Crasto) onde a fada madrinha da princesa moura os esperava, para os envolver nos seus encantos e os esconder dos perseguidores a partir de então toda a serra se encheu de encantos e mistérios. A partir de então outras lendas surgiram, conta-se que uma rapariga que por ali passou na manha de S. João antes de o sol nascer, cansada da jornada sentou-se a donzela a descansar e adormeceu, ao acordar viu as gotas de orvalho transformadas em estranha fruta que ela apanhou e meteu no seu bornal, levando-a consigo para as horas de menor fartura, já longe despertou-lhe a fome e metendo a mão no bornal descobriu que a fruta se tinha transformado em ouro, logo dali com um sentimento ambicioso decidiu voltar ao cabeço para recolher o restante ouro, lá chegando não encontrou nada ouvindo apenas uma voz falar:

    “Tudo era teu quando vieste,

    Agora tornaste em vão.

    Não passes mais neste sitio,

    Na manhã de São João.

    Não te perdeu a pobreza,

    Pode perder-te a ambição.”

    (versão resumida)

     

    Bibliografia

    Guia da Expedição Cientifica à Serra da Estrela, 1881.

    Monografia da Vila Seia “ de P. José Quelhas Bigotte.

    (Mondego, Alva e Zêzere) Do Estrela da beira, nº 97 (11-2-1934), Visconde De Sanches De Frias.

    “Ecos de Manteigas” n.º 71 de 5-2-1956

     

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