A Ovelha e o Pastoreio

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Museu Virtual Category: ECONOMIA LOCAL e PastoríciaMuseu Virtual Tags: manteigas, ovelha, pastor, pastoreio, pastoricia e serra da estrela

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  • A ovelha era menos resistente e acomodatícia, do que a cabra, requerendo mais cuidados e melhores pastagens. No inverno os rebanhos ovelheiros pastavam nos vales e eram acomodadas nos estábulos durante os rigores do frio e alimentados com feno ou folhas. No verão pastavam nas encostas e planuras da Serra e pernoitavam em restolhos das terras cultivadas. O pernoitamento executava-se dentro de um cerco móvel, construído com uma rede e estacas, para que o gado com o seu estrume adubasse a terra, no sítio, em que pernoitava. O cerco ou malhada mudava-se todos os dias para que o adubo se fosse estendendo por uma área determinada. Um dos fatores importantes para a alta produtividade leiteira da ovelha bordeleira da Serra da Estrela residia nos pastos, sobretudo o cervum, erva dura que cobre a serra. A ovelha dava menos leite que a cabra. Produzia seis litros por mês, o que a cabra dava num só dia. Com seis litros de leite fabricava-se um quilo de queijo Serra da Estrela, que valia o maior preço que atingia um queijo português. Era vulgar verem-se algumas cabras em pouco número, no meio de rebanhos de ovelhas. O seu leite servia para “amaciar” o queijo e para o fabrico de requeijão, normalmente consumido pelas famílias dos pastores. Tinha a ovelha um valor superior à cabra, porque, além de dar tudo o quanto esta dava, produzia também o velo, muito procurado para fabrico do vestuário humano. Durante anos, a procura da indústria têxtil esteve na base de um sistema de pastoreio que consistia em articular as pastagens de altitude, durante o tempo seco, com as pastagens de baixa altitude, no decorrer do inverno.

    O homem das abas da Serra da Estrela manifestou, então, extraordinária inteligência na capacidade de integração no meio ambiente. Criou rebanhos de ovelhas. Com os primeiros nevões do fim de outubro ou novembro, procurava os pastos nas terras baixas, onde permaneciam ao ar livre todo o inverno, à guarda dos pastores que numa cabana, muitas  vezes improvisada, encontravam abrigo contra o frio e a chuva. No verão, quando os calores de S. João tudo crestavam, subiam os gados à serra, na demanda de pastos verdes. E, aí, as ovelhas continuavam a colher o manancial de energia que o sol criava nas ervas verdes que cobriam planaltos e lombadas da serra, e o transformavam e concentravam em carne, leite, lã, esterco e peles. Assim se vencia a fome de inverno. A ovelha proporcionava a lã que a serrana aprendeu a fiar. As peles serviam de agasalho. O gado dormia nos estábulos ou no campo, dentro das cancelas ou nos bardos (formados por redes de cordas circularmente enterradas no chão com ajuda de estacas), fertilizando as terras. Os rebanhos constituíam o mais poderoso apoio das comunidades que, aqui, neste vale fértil, elegeram um lugar para viver.

    A florestação de muitos baldios serranos, diminuindo as áreas de pastagem disponíveis, as transformações ocorridas no têxtil, originando uma menor procura de lã, o êxodo rural, fazendo desaparecer rebanhos inteiros devido à partida dos seus proprietários, tudo se conjugou para que o pastoreio da Estrela adquirisse uma nova feição. E foi a valorização do Queijo da Serra já em anos recentes que lhe conferiu novo impulso, fazendo com que a criação de gado ovino continue a representar, se bem com um efetivo muito mais reduzido, um dos aspetos mais significativos da vida rural na montanha.

    Acreditou-se durante milénios que a lã melhorava com a mudança dos pastos, transformando a lã em “ouro”. Porém, o grande espetáculo da transumância desapareceu dos hábitos arreigados dos povos serranos.

    A raça de ovelhas que povoava a Serra da Estrela era a bordaleira, produtora, por excelência, do leite que dá origem ao queijo da Serra, terá sido originária do cruzamento dos ovinos da Península Ibérica com os de origem africana trazidos pelos muçulmanos. De pequena corpulência apresenta uma cabeça curta, nua, levemente convexa e com focinho delgado. Os seus chifres são largos, pouco torcidos ou quase direitos, nulos sempre nas fêmeas e às vezes nos machos. Possui orelhas grandes e pescoço comprido e delgado. As pernas são compridas, delgadas e nuas. O velo é negro ou branco, formado por pelos lanosos, curvos, umas vezes feltrados, outras vezes enrolados em mechas compridas.

     

    Bibliografia
    Fragmentos do Passado – Manteigas nas décadas de 1950 e de 1960, Nataniel Rosa, 2016

     

     

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