A Evolução da Indústria em Manteigas

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Museu Virtual Category: PATRIMÓNIO INDUSTRIALMuseu Virtual Tags: evolução da indústria, manteigas e património industrial

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    Recuando nos séculos, e analisando a importância que a criação de gado (pastoreio) demonstra ter na vila de Manteigas, é de supor que de algum modo a indústria dos lanifícios também apresente uma tradição mais antiga do que aquilo que se possa presumir à partida. Neste caso, o pastoreio interessa no sentido do fornecimento de matéria-prima, uma vez que existindo em grande número, seria normal que tudo fosse aproveitado, desde fonte de alimento a matéria para vestuário.

    Já no século XV, os oficiais do Reino concederam vários privilégios ao povo de Manteigas, permitindo-lhes que levassem o seu gado a pastar em diversas zonas do país. No entanto, em alvará de 1467, D. Afonso V anula parte daqueles privilégios, retirando a autorização para “meterem” o seu gado nas pastagens de Castelo de Vide, uma vez que este território era pequeno e as pastagens eram precárias.

    Em 1496, D. Manuel confirmou o privilégio, concedido em 1466 por D. Afonso V, ao concelho de Manteigas, que permitia aos gados da vila e termo pastar por todo o reino, sem pagamento de coima, desde que não provocassem danos ou devassas, nas coutadas. Com este dado podemos deduzir que os pastores se agrupavam em grandes grupos para facilitarem a condução do gado para as áreas da transumância, para norte junto ao Douro ou para sul junto à Idanha ou Alentejo. Estas estratégias de transumância mantiveram-se inclusive até ao século passado.

    Podemos então concluir, que a zona de cultura extensiva no próprio termo; a existência de maninhos e baldios (Foral de 1514); a utilização de pastagens de altitude (no verão), na área concelhia e concelhos limítrofes, e o recurso à transumância (no inverno), levaram a que a comunidade se dedicasse à criação de gado. Desta forma, se organizou e consolidou uma “forma de vida” multissecular que vai caracterizar a história desta vila serrana.

    Relativamente, à produção de lanifícios em Manteigas começou a ter particular destaque a partir do século XVI. Em 1524, o rei D. Manuel I concede Alvará de Vedoria para que se fiscalizasse o produto, demonstrando que a produção seria em número suficiente para que exigisse a criação do cargo de Vedor na vila.

    No século XVII, o Conde da Ericeira, grande impulsionador da indústria em Portugal, dizia que “o trato dos moradores de Manteigas todo é de panos e todo é de lãs”, tal descrição pode ser um pouco exagerada, mas de facto, em 1679 nascia a primeira manufatura da vila, no lugar da Matufa, junto à confluência de um pequeno ribeiro com o rio Zêzere. Esta unidade teria como objetivo a produção de sarjas e baetas, é uma das primeiras existentes em Portugal e estaria ligada aos negócios da Covilhã, como complemento. Era também conhecida como “o engenho”.

    No século XVIII, a atividade industrial estava já fortemente implantada, não no sentido que hoje temos de indústria, mas como oficinas manufatureiras, espalhadas pela vila. Isto é, a indústria setecentista continua a ser essencialmente doméstica, uma estrutura rural, que aproveita as matérias-primas locais, destinando-se  a maior parte da produção  ao comércio local ou regional. A oficina constituía a base do trabalho industrial. Neste contexto, os artífices das oficinas eram contra qualquer tentativa de industrialização, mais em concreto contra as “grandes empresas”, pois receavam a introdução de novas técnicas e de novas formas de organização de trabalho e temiam o aumento do preço da matéria-prima e do fio para a tecelagem.

    Nas Memórias Paroquiais de 1758 não existem muitas referências ao pastoreio, diz apenas ser “abundante de gados grossos e miúdos”. Sobre a serra, os párocos referem a Nave de Santo António como uma “campina muito assente (…) cheia de uma erva, a que os pastores chamam servum muito boa para os gados de lã, no verão, é do que se sustentam.”. Uma vez que não se referem a qualquer tipo de indústria de lanifícios, o tratamento de lãs e confeção de panos seria, sem dúvida, apenas um complemento para a maior parte dos artífices.

    Apesar dos poucos dados existentes sobre o assunto, em 1763, existiam em Manteigas pelo menos 168 indivíduos que trabalhavam em profissões ligadas aos lanifícios, o que revela alguma especialização neste campo, sendo a paisagem social de finais de século XVIII caracterizada por este sector. A fiação era exclusivamente executada pelas mulheres, ocupando o tempo que lhes sobrava dos trabalhos domésticos ou do campo; os cardadores eram os únicos que se dedicavam unicamente a essa profissão; os tecelões pertenciam quase sempre à classe superior, ou pelo menos com maior capacidade financeira, pois possuíam tear próprio, recebendo o fio e tecendo-o, completando deste modo outros rendimentos; os ultimadores, como pisoeiros, tintureiros e tosadores, tinham normalmente outros negócios ou terras. Embora uma boa parte da população de Manteigas se encontrasse ligada à produção têxtil, o que acontecia na realidade é que esta era apenas um complemento aos rendimentos.

    Tal como aconteceu em muitas outras localidades portuguesas, é só no século XIX que em Manteigas se vai tentar um processo de reajustamento às novas realidades económicas, com investimento em equipamentos técnicos. Ainda que existissem muitas unidades produtoras, as primeiras fábricas começaram a surgir em meados de oitocentos, estendendo-se a industrialização pelo século XX.

    Os trabalhadores que antes laboravam no seu lar, apenas para obter um rendimento extra à sua atividade, veem nas fábricas uma forma de viver melhor. No entanto, a vida de um operário não se revelou fácil. Eram horas a fio, trabalhando na mesma função, na mesma posição, e o salário que recebiam era pouco, comparado com o esforço que faziam para o obter. Se para os homens era difícil, recebendo em média 200 réis, para as poucas mulheres operárias, de finais do século XIX, era ainda pior, auferindo em média 1/3 do salário masculino.

    Aceitando-se que já no século XVIII existiam algumas unidades de produção, é no século XIX, mais concretamente a partir da década de 40, que se inicia uma nova fase na indústria dos lanifícios de Manteigas. Até ao final do século foram criadas 5 unidades fabris, embora nem todas tratassem a lã em todo o seu processo até ao produto final. O expoente máximo, deste desenvolvimento, refletiu-se no complexo industrial de São Gabriel. A partir dos ideais progressistas do seu fundador, Sr. Joaquim Pereira de Mattos, criou-se uma fábrica completa, que tratava a lã do início ao fim. Ali criou uma pequena aldeia industrial auto-suficiente, onde patrões, operários e familiares podiam viver, seguindo o exemplo de algumas colónias industriais europeias, nomeadamente da Catalunha.

    Durante o século XX, algumas destas fábricas desapareceram, mas outras houve que progrediram e permitiram a Manteigas continuar a ser um grande centro produtor de artigos de lã. Na década de 50, com mais de 5000 habitantes na vila, as fábricas tinham mão-de-obra suficiente para sustentar um forte crescimento. Resultando da fusão de duas dessas firmas, a “SOTAVE – Sociedade Têxtil dos Amieiros Verdes” veio transformar o panorama industrial, reavivando o desenvolvimento que tinha começado com a firma Joaquim Pereira de Mattos e Cunha. Se nos tempos desta se aproveitaram as melhorias técnicas disponíveis, nomeadamente as máquinas a vapor, aquela podia já retirar todas as potencialidades da energia elétrica, introduzida na vila muito em parte pela sua importância industrial, para uma maior produção.

    Em contrapartida, após este crescimento, a indústria manteiguense começou a entrar em declínio a partir das décadas de 60 e 70, altura em que os habitantes da vila, e de todo o concelho, procuraram na emigração melhores condições de vida que não conseguiam alcançar de outra forma. O trabalho nas fábricas era duro e a compensação salarial não era das melhores. Foi também uma altura em que muitos jovens deixaram o país, para fugirem à guerra do ultramar. Assim, apenas os mais velhos se iam mantendo no desgastante trabalho de operário.

    No cerne desta decadência esteve também a entrada de produtos estrangeiros, mais baratos, mas com menor qualidade, no mercado nacional, com os quais não conseguiam competir, juntando-se ainda o isolamento da vila, que não permitia um fácil escoamento do produto que aqui se fabricava.

    Apesar das dificuldades, tanto a SOTAVE como São Gabriel mantiveram-se em funcionamento até ao século XXI, embora esta última funcionasse apenas em parte, como complemento de outras fábricas de dimensões mais reduzidas, como a firma “Inês & Barbosa” que manteve o lavadouro em funcionamento até 2004. Já a SOTAVE foi declarada insolvente em 2007.

    Hoje, tendo em conta as dificuldades criadas pela crise financeira mundial, pequenas empresas criadas na vila com o intuito de recuperar a antiga tradição da indústria de lanifícios, conseguiram destacar-se pela excelência dos seus produtos, nomeadamente o burel, reinventando este produto e dando lhe novos usos. A sua qualidade leva a que seja exportado a nível mundial.

    Em suma, o concelho de Manteigas desde cedo apresentou condições únicas para o desenvolvimento da indústria de lanifícios. Um bom ambiente natural, como as áreas de pastagem que permitiam um elevado número de cabeças de gado, originando matéria-prima em abundância, e boas condições hidrológicas, com o Rio Zêzere passando pela vila, dando água suficiente para o processo de criação (lavagem e tinturaria) e facilitando o movimento de mecanismos a vapor, já no século XIX. A população, habituada a condições precárias, da ruralidade em que vivia, não se importaria de ingressar num trabalho que lhe trouxesse melhores condições de vida ou pelo menos mais estáveis, um trabalho assalariado garantia um sustento regular. Para além desta classe social mais baixa, existia na vila uma elite que convivia regularmente com os centros urbanos e que trazia para aqui as últimas tecnologias, e os benefícios que granjeavam junto da corte e de altos conhecimentos na sociedade portuguesa, pessoas que usualmente passavam férias nesta vila escondida na Serra da Estrela.

    Todos estes factos, conjuntamente, contribuíram para uma evolução da indústria desde o século XVI, criando um ambiente industrial durante 500 anos de história, que competia com outros centros produtores portugueses, e deixando em Manteigas uma tradição que não deve nem pode desaparecer e da qual todos os manteiguenses se devem orgulhar.

     

    Bibliografia

    Antologia I – Depoimentos Histórico – Etnográficos sobre Manteigas e Sameiro, José Lucas Baptista Duarte, Edição da Câmara Municipal de Manteigas, 1985

    Aquele Profundo Vale, José Cleto Estrela, Manteigas, Dezembro 2003

    Inquérito Industrial de 1891

    Manteigas na segunda metade do século XVIII: os Homens e a Indústria,Augusto José R. M. Monteiro, Edição da Câmara Municipal de Manteigas, 1992

    Rota de Lã Translana (Rota de la Lana), Portugal/Espanha”, volume II, Museu dos Laníficios, UBI, Covilhã, 2009

    Fontes

    Foral Manuelino de 1514

    Alvará de D. João III, de 1524

    Memórias Paroquiais de 1758

    Websites Consultados

    http://www.cm-manteigas.pt/municipio/servicosprojectos/mostradocumental/Paginas/DocumentoSetembro.aspx

    http://www.turismoserradaestrela.pt/index.php/pt/rotas-turisticas/turismo-cultural/rota-da-la/item/160-as-terras-da-rota-da-l%C3%A3

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